Foi ao Chile. Conte pra gente: Navegar – pela Patagônia – é preciso

por Rosi Guimarães

Depois das histórias da Renata Abritta e da Ane Karen, a viajante de hoje é a jornalista Lucila Guimarães, que fez um lindo cruzeiro pela Patagônia Chilena e vai dividir sua experiência com a gente.

Texto e fotos: * Lucila Alves Guimarães

*A jornalista viajou a convite da M.Dart Viagens e Cruzeiro Australis S/A

Sempre sonhei em viajar muito. Nos meus sonhos, surgia, sim, um cruzeiro marítimo, mas nunca imaginei uma viagem como a que fiz com meu marido: um cruzeiro de expedição pela Patagônia. O primeiro sentimento que tive ao saber da viagem foi de encantamento, mas à medida que o dia do embarque se aproximava, o deslumbramento foi sendo substituído pela ansiedade e – sim – pelo medo. Mas, a realidade pode ser mais bela do que nossos sonhos e a viagem acabou ocupando um lugar privilegiado entre as minhas melhores lembranças.

De bote em pleno fim do mundo.

De bote em pleno fim do mundo.

A temporada de cruzeiros para a Patagônia vai de setembro a abril. Embarcamos no navio Stella Australis, da empresa Cruzeiro Australis S/A, em meados de outubro, em Ushuaia, cidade da Argentina e capital da Província da Terra do Fogo, lugar encantador, onde passamos dias deliciosos. Nosso destino era Punta Arenas, a capital da Patagônia chilena. Durante quatro dias e três noites, tivemos o privilégio de descobrir as muitas e únicas maravilhas do fim do mundo – ou será o começo?

Embarcamos em uma quarta-feira, 12 de outubro, exatamente às cinco horas da tarde. Literalmente marinheira de primeira viagem, fascinava-me com tudo. Ao chegar à cabine, uma grata surpresa com a beleza, o conforto e, sobretudo, a visão magnífica que teríamos ao longo de toda a viagem, navegando por algumas das áreas mais intactas do mundo.

Depois de nos acomodarmos, reunimo-nos para uma explanação sobre o que nos aguardava até o sábado seguinte, além das orientações de praxe. Com capacidade para 210 passageiros, o navio levava cidadãos de 15 países: Alemanha, Argentina, Áustria, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, México, Nova Zelândia, Reino Unido, Suíça e Venezuela. Fomos divididos em três grupos para os passeios e palestras, de acordo com a língua escolhida: espanhol, inglês e português. Optamos pelo espanhol, porque meu marido queria praticar o idioma, e acabamos nos divertindo muito com quatro novos amigos da Espanha, entre outras boas companhias.

Olha a Lucila a caminho da geleira

Caminho da geleira

Começamos a navegar por volta das oito da noite em direção ao Cabo de Hornos, o ponto mais meridional da América do Sul. Descoberto em 1616, fica na Ilha de Hornos, no arquipélago da Terra do Fogo, na porção pertencente ao Chile. Após a reunião de apresentação, tivemos nosso primeiro jantar a bordo. A comida foi uma atração à parte: sabor, variedade e fartura pra ninguém botar defeito, além de uma tripulação gentil e simpática.

A noite foi tranquila. Dormimos bem, apenas um pouco ansiosos com o que o dia seguinte nos reservava. Deveríamos acordar às 6:30 para dar início às atividades. Acordamos pontualmente no horário marcado e foi neste momento que caímos na real: estávamos num navio, longe de tudo, sem acesso a celular ou internet e no meio de águas MUITO turbulentas, isso pra dizer o mínimo. Afinal, o lendário Cabo de Hornos é considerado um dos maiores desafios náuticos, com muitos naufrágios e mortes em sua conta. O navio balançava horrores, sem parar, e a gente ia junto. Chovia, os ventos chegaram a 150 quilômetros por hora e, por questões de segurança, não pudemos desembarcar no Parque Nacional Cabo de Hornos, declarado Reserva da Biosfera pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Glaciar Águilla uma visão de sonho

Glaciar Águilla uma visão de sonho

Ao contrário de muitos passageiros que sofreram com o mau humor daquelas águas, eu e meu marido passamos incólumes por esta experiência. Seguimos à risca a recomendação de evitar tomar muito líquido e descansar até tudo se acalmar e apreciamos o espetáculo confortavelmente instalados no salão principal do navio.

Na tarde daquela quinta-feira, os ventos chegaram a 200 quilômetros horários, mas, apesar disso, conseguimos fazer nosso primeiro desembarque. A acomodação no bote que nos levaria à terra firme foi uma aventura à parte – afinal, estávamos em pleno fim do mundo – mas tudo foi feito com tanta segurança que o meu MEDO… que medo mesmo?

Um pedaço do paraíso

Um pedaço do paraíso

Seguindo os passos de Darwin

Durante cerca de uma hora e meia, caminhamos pela Baía Wulaia, lugar histórico que foi um dos maiores assentamentos de nativos canoeiros Yámanas na região e onde Charles Darwin desembarcou durante sua viagem a bordo do HMS Beagle, em 1833. Caminhamos pelo Bosque de Magalhães – em alguns pontos, vimos como os castores podem devastar um lugar – até chegar a um mirante com vista capaz de suspender a respiração. Antes do embarque, parada para uma bebida. Escolhi uma dose de uísque: o cenário merecia um brinde. A volta para o navio, em torno de sete minutos, rendeu boas risadas do condutor do bote: o mar estava bem agitado e os nossos gritos ainda devem ecoar por toda a baía.

Paisagem imponente no Mirante da Baía Wulaia

Paisagem imponente no Mirante da Baía Wulaia

No terceiro dia, navegamos por alguns belos canais na Terra do Fogo, até que o comandante nos avisa da aproximação do Glaciar Águila. Que visão aquela geleira que descia da montanha até chegar à água! Desembarcamos para uma caminhada pela praia, margeando uma lagoa rodeada de montanhas. Som, só o do vento e das pequenas ondas que quebravam na areia. Como se fosse combinado, o grupo falava baixo, num tom de respeito diante de lugar tão majestoso. Ali, não cabiam palavras.

No início da manhã de sábado, desembarcamos na Ilha Magdalena, no Estreito de Magalhães, lugar de parada obrigatória para o abastecimento de antigos navegantes e descobridores. Esta ilha é o lar de uma das maiores colônias de pinguins de Magalhães do Hemisfério Sul. Apreciamos estas fofas e engraçadas criaturinhas que andavam de um lado para o outro, protegendo-se em buracos na areia ou correndo até o mar para um mergulho, enquanto caminhávamos em direção ao farol, que orienta as embarcações em suas passagens pelo Estreito.

O reinado de fofas criaturas na Ilha Magdalena

O reinado de fofas criaturas na Ilha Magdalena

Após quatro dias navegando por glaciares e fiordes da Cordilheira Darwin, pelo Canal de Beagle e pelo lendário Estreito de Magalhães, terminamos nossa viagem em Punta Arenas, que, por sua localização geográfica, já foi o principal porto de navegação entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Passamos um dia nesta simpática cidade, já com saudades dos dias a bordo do Stella Australis.

Em nossa última noite no navio, aliás, a sobremesa servida no jantar foi cheese cake de calafate, fruta típica da região. Não pude deixar de provar. Afinal, diz a lenda que quem come esta iguaria volta à Patagônia. Tomara!

Saudades já na chegada em Punta Arenas

Saudades já na chegada em Punta Arenas

Vida a bordo

Nos quatro dias dentro do navio, não faltaram aprendizado e diversão. Além do privilégio de apreciar, de qualquer ponto da embarcação, uma região de muita beleza, pudemos assistir a várias palestras audiovisuais sobre fauna e flora, geografia, glaciologia, etnografia e história da Patagônia.

E a comida! Eu que achei que não fosse conseguir comer nada por estar em um navio, deleitei-me com pratos variados, bem preparados, regados por bons vinhos. Isso sem falar no pisco sour – mania nacional no Chile, espécie de caipirinha, feita com aguardente destilada de uvas moscatel com elevado teor de açúcar, cultivadas nos vales irrigados do norte do Chile e no Peru. Brindes não faltaram!

Também nos divertimos muito com aula de nós marinhos – claro que só consegui fazer uns dois (e olhe lá) –, desfile de moda com as roupas e acessórios da loja de bordo, em que os próprios passageiros eram modelos – felizmente, fiquei apenas na plateia – e bingo – aff! Não ganhei nada. Na última noite, houve leilão da Carta de Navegação, arrematada por US$ 320 por um grupo de quatro passageiros da Suíça. Ao final, taça de champanhe na mão, brindamos com o capitão uma viagem que foi além dos meus melhores sonhos.

Na mala vai…

Verdade seja dita: nunca soube fazer mala. Sempre levo muita, mas muita coisa mesmo, e, claro, acabo me arrependendo. Felizmente, nesta viagem, segui as orientações da Cruzeiro Australis e me senti confortável a bordo e em terra firme.

Para um cruzeiro de expedição pela Patagônia, deve-se levar roupas esportivas e isso vale para homens e mulheres. Como, mesmo no verão, as noites e, às vezes, os dias na Patagônia são frios, é preciso levar blusas, casacos, calças, gorros, luvas e sapatos de trekking ou botas para caminhada, além de dois pares de sapatos.

Para as expedições propriamente ditas, os equipamentos necessários são: gorro, óculos de sol, bloqueador solar, suéter, jaqueta, luvas e calça impermeáveis, e botas ou sapatos de trekking. Acabei tendo que comprar a calça impermeável e o gorro no navio, pois os que levei não eram lá muito adequados, mas valeu a pena: o preço até que foi razoável e a qualidade, muito boa. E, o melhor, são boas lembranças de uma viagem feliz.

Mais um pouco da Ilha Magdalena, com seu farol e seus ilustres habitantes.

Mais um pouco da Ilha Magdalena, com seu farol e seus ilustres habitantes.

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3 comentários

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