Vinhos chilenos muito além do Casillero del Diablo

por Rosi Guimarães

Hoje venho conversar com vocês sobre os vinhos chilenos, mas não os convencionais. Como muitos já sabem, eu moro no Chile há 6 anos e sou apaixonada por vinhos. Aproveitei essa quarentena para aprender um pouco mais sobre a bebida através de cursos on-line disponibilizados pelo Enoturismo Chile e outras organizações. Com o aprendizado, eu vou também descobrindo novidades que me deixam cada dia mais encantada pelo mundo do vinho.

Quando se fala em vinho chileno, a primeira ideia que vem à cabeça de muitas pessoas é Concha y Toro – que é a maior do Chile e está entre as maiores do mundo. Mas eu te convido a conhecer também os pequenos produtores, pequenos mesmo, os que produzem cinco mil litros por ano, enquanto a maior daqui produz 280 milhões de litros.

Agora na pandemia, como não podemos visitar as vinícolas, uma nova modalidade de degustação está em alta por aqui,  são catas virtuales ou degustações virtuais através da plataforma Zoom. Como funciona? As pessoas adquirem o kit com os vinhos da degustação, são geralmente três, escolhidos pelo enólogo, então elas recebe as bebidas em casa, e no dia e hora marcados é so se conectar pelo link e começa o bate papo com o especialista. É quando ele conta sobre a história da produção dos vinhos, explica sobre o vinhedo, aromas, sabores, e vamos degustando e aprendendo, em uma clima bem descontraído e informal.

Meu marido e eu temos privilegiado as conversas com os pequenos produtores, e com isso temos aprendido muito sobre os vinhos feitos em pequena escala, os orgânicos, biodinâmicos, e até os vinhos éticos.

Com o intuito de divulgar as pequenas produções chilenas, feitas com cuidado, respeito e ética, a sommelier brasileira Renata Moreti junto com Samir Roselem e Sérgio Maranhão criaram a plataforma Tierra, que tem como objetivo principal conectar o pequeno produtor ao consumidor final.

E a Renata Moreti, através da Tierra, também tem promovido as degustações virtuais e em uma delas eu tive o prazer de conversar com enólogo Raul Narváez,  do vinhedo Fanoa e ele contou sobre as diferenças entre as produções tradicionais, as orgânicas e as biodinâmicas. Ele explicou que a tradicional é quando se utilizam produtos químicos nas parreiras e na produção dos vinhos, o orgânico troca o químico pelo natural, ou seja, não utiliza agrotóxicos, e o biodinâmico é o mais amigável, é o que busca que o meio ambiente seja totalmente autossustentável e com o mínimo de intervenção humana, é uma produção baseada no filósofo Rudolf Steiner. Esse último é o processo adotado pelo enólogo no seu vinhedo.

E o que seria um vinho ético, Rosi? Em poucas palavras, seria a valorização das pessoas que trabalham na produção do vinho. E foi na conversa com a Raul Narváez que descobrimos o vinho Los Confines, da uva moscatel, colheita 2019,  que tem uma história surpreendente. O vinho vem de um antigo vinhedo de apenas 0,6 hectares e que está localizado dentro de uma prisão, onde os presos cumprem suas penas trabalhando nos nestas parreiras. E mais, o Raul nos contou que ele paga até cinco vezes mais pelo quilo da uva do que as grandes indústrias, então a gente realmente percebe que está tomando um vinho feito com amor e que tem uma linda história de reinserção social, além de ser super diferente e promover uma explosão de sabores na boca. Degustamos também outros dois vinhos produzidos pelo Raul, Cosmo – rosado 2019 e Fanoa Seis Tintos 2017.

Outro projeto muito interessante aqui no Chile é o MOVI –  Movimiento de Viñateros Independientes.  É um grupo de pequenos produtores de vinhos de alta qualidade, diferentões e que representam a realização de um sonho dos enólogos, já que muito deles deixaram de trabalhar nas grandes vinícolas para produzir os seus próprios vinhos. Assim, eles podem ousar na pequena produção pessoal.

Nesse grupo estão duas vinícolas de brasileiros que vivem aqui no Chile. A Atilio & Mochi, do casal Angela Mochi e Marcos Attilio e a La Recova, do carioca Davi Giacomini. Conheço as duas vinícolas, e tanto na Atillio & Mochi quanto na La Recova a gente tem a oportunidade de ser recebido pelos donos. Além de pequena produção e preocupação com a qualidade dos vinhos, os brasileiros estão dando um show aqui no Chile e produzindo vinhos premiados. Attilio & Mochi foi eleito duas vezes o melhor Malbec do Chile em 2020 e 2017, segundo o Guía La Cav.

Também dentro do MOVI, tivemos o prazer de conhecer a história da vinícola Tringario, uma pequena e familiar vinha de um casal e três filhas que formam o nome da vinícola. O enólogo José González conta que trabalhava em uma grande indústria e que se cansou de produzir vinhos com receita e com técnicas pré-determinadas, por isso, ele abandonou a grande e hoje está feliz numa pequena produção. Ele, inclusive, vem fazendo vinhos que gosta de tomar, entre eles um da uva marsellan, que ele fala, orgulhoso, que foi o primeiro produtor dessa fruta no Chile. Essa foi a primeira vez que eu tomei vinho produzido com essa uva típica da Espanha.

Mergulhar no mundo dos pequenos produtores é ter a oportunidade de conhecer novas sensações, novas misturas, sair do óbvio e provar vinhos diferentes e mais naturais e saudáveis, sem muita intervenção química no vinhedo e no processo de fabricação.

É com um taça na mão que faço um brinde aos pequenos e um convite a você para provar o novo, o diferente, preferir os que valorizam as pessoas envolvidas no processo de produção. Aproveito para deixar a dica de você visitar as vinícolas pequenas e se surpreender com suas histórias. E, claro, comprar os vinhos, já que muitos deles nem chegam no Brasil.

Salud!

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